segunda-feira, 28 de maio de 2018

TECNOLOGIA E AGONIA



O ano de 2018 despontou no Brasil sob a fumaça de fogos de artifício e tiros. E, no resto do mundo sob a ameaça insana e boçal com dois botões nucleares ecoando de dois lados opostos do Planeta. Blefe ou não, o certo é o mundo atual parece mesmo girar pelo poder dos botões tecnológicos, mesmo quando eles evoluem para o “Touch Scren”. Em poucos anos e por meio deles, o telespectador passivo saiu da frente da TV e transformou-se em um consumidor voraz, um produtor de conteúdos e influenciador de opinião, o que provocou uma grande revolução no comportamento social afetando, sobretudo as gerações mais veteranas, que nasceram e se criaram em um mundo que tinha mais tempo para o processamento das informações.


A internet, que já é realidade para mais da metade dos sete bilhões de habitantes da Terra, passou a conectar as pessoas muito depressa e a realizar inúmeros procedimentos facilitadores da vida humana. Tornou-se útil e poderosa na realização do trabalho, já que trabalhar “on-line” agiliza as decisões.  Por ela passou-se a pesquisar produtos e a fazer compras economizando-se tempo e viagens às lojas. Ela faculta à pessoa idosa e ao deficiente físico a possibilidade de realizar pesquisas ou compras on-line, promovendo, portanto, inclusão social. Por meio dela é possível rastrear encomendas ou cartas registradas enviadas pelo correio através de um código que é fornecido no momento da postagem. As Webs conferências e os programas de comunicação, que existem graças à rede mundial de computadores, economizam um bom tempo e dinheiro em passagens e ligações telefônicas para as empresas.

A Rede possibilita falar, ouvir e ver pessoas em lugares distantes, fazer consultas e transações bancárias, comprar, vender, trocar produtos, serviços e ideias. Ela é uma biblioteca pública gigantesca onde as pessoas buscam informações e entretenimento. A mesma incorporou à realidade humana concreta, conceitos abstratos como Nuvem e Bitcoin e o homem do Séc. XXI passou a acreditar ser impossível se viver sem os programas ou softwares aplicativos. A conhecida lógica do “ver para crer” foi substituída pela do “clicar para existir”, onde a máxima válida é: “clico, logo existo!”.

Mas, por outro lado, a internet passou a fazer a mediação entre os criminosos e suas vítimas. Pessoas são pagas para interceptarem a comunicação de outras e empresas roubam informações de seus concorrentes. Por ela promove-se  violação dos direitos autorais, difamação, roubos de senhas, clonagem de cartões, veiculação de spam, ataques de negação de serviço (com os quais computadores controlados remotamente tiram sites do ar), entre outros muitos problemas. É possível ainda se encontrar na rede pessoas que incentivam o suicídio, fazem apologia à anorexia, promovem a pedofilia, incitam o racismo, divulgam o neonazismo, estimulam o ódio entre torcidas, distribuem mensagens de cunho pornográfico e muitos outros conteúdos perniciosos. O homem atual passou a conviver simultaneamente com todas as formas de violência, real e virtualmente. E, e os dois universos se fundiram com espantosa naturalidade. 

Pelo acionamento de botões a vida ficou mais fácil. Mas, a mesma tecnologia que atenuou a agonia das exaustivas tarefas físicas retratadas em letras como “Lava roupa todo dia, que agonia, que agonia” ou “Lata d’água na cabeça”, provocou outro tipo de ansiedade e agonia que já preocupa estudiosos de diferentes áreas do conhecimento, especialmente as afetas às emoções. No início deste Séc. XXI, o medo de ficar sem celular já não é vício, é uma doença e tem nome: Nomofobia. A Nomofobia é o nome dado à sensação de medo ou agonia que um indivíduo tem de sentir incomunicável por estar sem o aparelho celular ou computador.  E, de acordo com alguns estudos, a dependência digital pode levar ao vício em drogas, comprometer a qualidade do sono, o que por sua vez, pode levar a problemas cardiovasculares, doenças endócrinas como diabetes e obesidade, além dos conhecidos problemas emocionais, mentais e envelhecimento precoce.  Pela primeira vez, o vício em games foi incluído na lista de doenças pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e, no início de 2018, o vício em games com o nome de “Distúrbio de Games” passou a ser considerado um distúrbio mental, na 11ª. Classificação Internacional de Doenças (CID).

Simultaneamente, passou-se a investigar as possíveis causas para o agravamento de problemas como a solidão, o isolacionismo, a depressão, o pânico e o suicídio e se chegou a um paradoxo. Encontrou-se que a internet, que supostamente conectaria pessoas, tem tido um papel preponderante na segregação, inclusive dentro das famílias. E isto tem aprofundado os já sérios problemas existenciais como a solidão.  Após um levantamento realizado pela Cruz Vermelha britânica segundo o qual a solidão e o isolamento formam uma “epidemia oculta” que afeta as pessoas em todas as idades em vários momentos da vida, quando este apontou para nove milhões de pessoas que dizem que sentem, sempre ou muitas vezes, solitárias, somente no Reino Unido, decidiu-se pela nomeação de uma “Ministra da Solidão” para o Reino Unido.  A justificativa pela criação do inusitado ministério estava clara nas palavras da própria Primeira Ministra Thereza May: “a triste realidade da vida moderna”.  Uma fiel e honesta sinopse de um tempo que tem trabalhado na insana e boçal tarefa de formatar gente, sem um botão para desligar.

Carmelita Graciana
Jornalista, membro da PIB Goiânia-GO
Contato: carmelita.graciana@gmail.com 




* Trabalho publicado originalmente  na Revista Visão Missionária Ano 96-Número 3- Julho a setembro de 2018- 3T18


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